Outubro rosa e Novembro azul

O “outubro rosa” e o “novembro azul” fazem parte de campanhas mundiais na prevenção do câncer de mama e de próstata, respectivamente. Elas tem se tornado cada vez mais difundidas, envolvendo mais as pessoas no exercício da conscientização. É comum, inclusive, que nesses períodos os pacientes busquem outras orientações não vinculadas a essas campanhas especificamente, como prevenção ao câncer de pulmão, cólon, pele e colo de útero, assim como prevenção de doenças cardiovasculares (cessação do tabagismo, controle da pressão arterial, do colesterol e do diabetes), atualização do calendário vacinal, entre outros cuidados da saúde em geral.

1) Sobre o outubro rosa, podemos destacar as seguintes informações:
– O câncer de mama é o câncer mais comum diagnosticado entre as mulheres, com aproximadamente 182.000 mulheres diagnosticadas com câncer de mama anualmente nos Estados Unidos.

– O câncer de mama também pode acometer os homens, porém a incidência é rara, representando menos de 1% do total de casos.

– O câncer de mama acomete mais frequentemente mulheres brancas do que mulheres negras. Porém as mulheres negras morrem mais desta doença do que as mulheres brancas.

– Fatores de risco relacionados ao câncer de mama: idade avançada, câncer de mama prévio, história familiar de câncer de mama (mãe, irmãs, avós, tias), mamas densas, exposição do tecido mamário ao estrogênio produzido no corpo, uso de terapia de reposição hormonal para sintomas da menopausa, obesidade, consumo de álcool, exposição prévia à radiação dirigida à região mamária.

- Fatores de proteção: gravidez, amamentação, atividade física, perda de peso.

– Os sintomas não devem ser ignorados. Na presença de qualquer um deles, a paciente deve procurar um médico para que seja devidamente avaliada.

– O auto exame não é indicado como exame de rastreio do câncer de mama, porém orienta-se que as pacientes fiquem atentas a mudanças no seu corpo e procure atendimento médico.

– No Brasil, segundo orientações do Ministério da Saúde, a mamografia de rastreio é recomendada na faixa etária de 50 a 69 anos, a cada 2 anos.

– Todavia, existem diretrizes internacionais que recomendam que a mamografia de rastreio seja realizada anualmente a partir dos 40 anos de idade. As mulheres devem receber aconselhamento sobre os possíveis benefícios, riscos e limitações do rastreio do câncer de mama. Nesse sentido, a tomada de decisão compartilhada entre paciente e médico(a) deve ser incentivada com base nos valores e preferências individuais da mulher.

– Em pacientes que apresentam mamas densas, o médico pode solicitar ultrassom de mamas juntamente com a mamografia, a fim de complementar a investigação tendo em vista que tumores pequenos são mais difíceis de serem visualizados em mamografias de mamas densas.

– Para mulheres que tiveram algum parente de primeiro grau diagnosticado com câncer de mama (por exemplo, aos 45 anos), a orientação é que o rastreio seja iniciado 10 anos antes do diagnóstico da parente (ou seja, aos 35 anos).

- A ressonância magnética de mamas pode ser usada como teste de triagem para mulheres com alto risco de câncer de mama, especialmente aquelas diagnosticadas com mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2.

- Pacientes que apresentam mutações patogênicas do gene BRCA1 ou BRCA2 devem passar por uma consulta de aconselhamento genético feita por um geneticista. De acordo com esta avaliação, as mulheres podem eventualmente ser aconselhadas a realizar a “mastectomia bilateral redutora de risco”, que se trata de um procedimento em que as duas mamas são retiradas cirurgicamente por um mastologista experiente. A “mastectomia bilateral redutora de risco”, especificamente realizada em mulheres com síndromes hereditárias de câncer de mama e ovário, pode reduzir a chance de câncer de mama em mais de 90%. O aconselhamento deve incluir uma discussão sobre o grau de proteção, opções de reconstrução da mama e riscos relativos ao procedimento cirúrgico.

- A salpingooforectomia redutora de risco (retirada cirúrgica e preventiva dos ovários e das trompas) também pode reduzir a chance da mulher desenvolver tanto câncer de mama quanto de ovário. O procedimento é indicado em pacientes entre 35 a 40 anos de idade que foram diagnosticadas com mutação do gene BRCA1. Já aquelas com mutação do gene BRCA2, a indicação de retirada dos ovários é um pouco mais tardia, dos 40 aos 45 anos. A salpingooforectomia redutora de risco diminui a chance de câncer de ovário em aproximadamente 85%. O aconselhamento para a realização dessa cirurgia inclui uma discussão sobre desejos reprodutivos da mulher, controle dos sintomas da menopausa, possível terapia de reposição hormonal a curto prazo e questões médicas relacionadas. Outras mutações (por exemplo BRIP, PALB, CHECK2 entre outras)  podem levar ao aumento de risco de câncer de mama, e as medidas terapêuticas ou profiláticas pertinentes devem ser discutidas idealmente com um especialista em oncogenética.

2) Sobre o novembro azul, podemos destacar:

- O Câncer de Próstata é o mais frequente entre os homens.

- Fatores de proteção identificados são: alimentação saudável com menor ingestão de carnes vermelhas, peso corporal adequado, prática de atividade física, não fumar e evitar o consumo de bebidas alcoólicas.

- Os fatores de risco são: idade (a cada dez homens diagnosticados com câncer de próstata no Brasil, 9 apresentam mais de 55 anos de idade), obesidade, histórico familiar de câncer de próstata (pai, irmãos, avôs), pacientes negros, história familiar ou pessoal de mutações de genes que conferem alto risco para câncer de próstata (por exemplo, mutação no gene BRCA).

– A partir do momento em que os fatores de riscos são identificados, uma discussão deve ser feita entre médico e paciente sobre os riscos e benefícios do início do rastreamento, que começa com a realização do toque retal e a dosagem de PSA (antígeno prostático específico) no sangue, indicada para pacientes entre os 45 e 75 anos de idade, segundo as diretrizes internacionais.

– Pacientes sem fatores de risco identificados devem discutir com seus médicos quanto à necessidade do rastreio, uma vez que não há uma definição precisa pelas atuais diretrizes se os benefícios superam os riscos de se realizar o rastreio de câncer de próstata para esse espectro de pacientes.

- O Ministério da Saúde do Brasil, por outro lado, não recomenda que o rastreio do câncer de próstata seja realizado em pacientes assintomáticos. Caso o homem apresente sintomas urinários, é recomendado procurar avaliação com urologista para realização de exame clínico e testes adicionais, conforme indicado.

- Os sintomas podem ser: dificuldade para urinar, demora em começar e terminar a micção, presença de sangue na urina ou no sêmen, diminuição do jato de urina, necessidade de urinar mais vezes durante o dia ou à noite, disfunção erétil.  Porém muitas vezes o câncer de próstata pode não apresentar sintomas.

- Se um homem sem sintomas  apresentar um nível elevado de PSA, o médico poderá recomendar outro teste de PSA para confirmar a descoberta original. Isso porque o PSA, que é uma proteína que é produzida especificamente pela próstata, não é necessariamente específica para o diagnóstico do câncer de próstata. Ou seja, o aumento do PSA pode ocorrer na vigência de infecção urinária, prostatite (infecção da próstata), ejaculação, exercício vigoroso e trauma local (andar de bicicleta ou a cavalo). Medicamentos como finasterida e dutasterida, por sua vem podem reduzir o valor do PSA.

- Se o nível de PSA, contudo, ainda estiver alto, o médico pode recomendar a biópsia da próstata, que é o teste que vai confirmar ou não o diagnóstico do câncer de próstata.

– Após o diagnóstico de câncer de próstata, nova discussão deve ser feita entre o médico e o paciente em relação à agressividade da doença e opções de tratamento. Importante frisar que muitos casos são de câncer de próstata pouco agressivos (baixo risco) e a chance de um homem morrer desta causa pode ser pequena. Por outro lado, tumores de risco intermediário e alto risco podem necessitar de tratamento específico, que pode ser cirurgia (prostatectomia, que é a retirada total da próstata e vesículas seminais), radioterapia e eventualmente uso de bloqueadores hormonais. Em geral o tratamento tem a capacidade de curar grande número de pacientes e a escolha do melhor tratamento deve ser feita pelo médico de acordo com características do paciente e da doença.

CONCLUSÃO

       Após todas as informações acima elencadas, a mensagem que gostaríamos de deixar é: pratique atividade física, cesse o tabagismo, busque alimentação saudável, controle o peso corporal, reduza o consumo de bebidas alcoólicas, atente-se a sintomas nas mamas ou sintomas urinários e não os ignore, buscando atendimento médico qualificado. Objetivando aproximar a população de informações sobre promoção à saúde, o Ministério da Saúde lançou a plataforma “Saúde Brasil” (http://saudebrasil.saude.gov.br/), focando em importantes quatro pilares: “Eu quero parar de fumar”, “Eu quero ter um peso saudável”, “Eu quero me exercitar” e “Eu quero me alimentar melhor”. A ferramenta reúne conteúdos para apoiar a população a mudar seus hábitos em prol de uma vida mais saudável e com qualidade. Cuide-se!

Dr Cesar M Costa, Médico residente em Oncologia Clínica pelo Hospital Sírio-Libanês, que ministrou palestra aos funcionários da FAPESP no último dia x. e-mail: cesarmtcosta@gmail.com

Dr Diogo A Bastos, Oncologista Clínico do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, especialista em tumores do trato geniturinário. e-mail: diogo.bastos@hsl.org.br

Dr Artur Katz, Diretor do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, Oncologista Clínico do Hospital Sírio-Libanês, especialista em câncer de mama, ovário e pulmão. e-mail: arturkatz@gmail.com

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